ELIS

 


Elis

 

         O rímel derrete porque a lágrima quente banha o rosto como uma nascente. O lábio treme e se contrai. Os olhos, baixos, nos levam junto à procura da emoção nos rés do chão. O braço, penso, crispa a mão. Na outra, o microfone cola na boca. O piano desenha e a voz fia a renda do poema, completamente entregue à sua viagem. A cantora canta. Silêncio.

 

            “... perdoa a cara amarrada / perdoa a falta de espaço / os dias eram assim...”.

 

         A cantora canta para os filhos, canta para os homens, canta para o mundo, canta um Brasil de penitências, de repressões.

 

         A cantora vive o que canta. A cantora canta o que vive. A cantora é o que vive e o que canta. A cantora canta. Silêncio.

 

            “... caía a tarde como um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos...”.

 

         A cantora, no meio do circo, contando as histórias do sem fim da luta, sem trégua, sem brilho, seus mártires e líderes, uma história de se entregar. A voz é lamento. A cantora canta. Silêncio.

 

            “... Upa, neguinho na estrada / Upa pra lá e pra cá...”.

 

         A cantora ri escancarado. Balança a cabeça. Os olhos apertados vêem o menino que dança, que corre, que joga pelada. Olhar de enternecer-se diante da grandeza da vida humana que se inicia sem fronteiras de senso. A cantora canta. Silêncio.


 

MÚSICA DE FUNDO: ESTÁTUA DE CRISTAL - ARRANJO DE ACOMPANHAMENTO DO CD