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- Fáceis, UMA OVA! -
(Para a Orquestra
Filarmônica do Estado do Espírito Santo)

Existem fatos que exigem, de nós, uma atitude. Não creio que exista alguém
que já não se tenha deparado com um momento assim: a necessidade de manifestar-se
contra ou a favor de algo que fala à alma ou, no mínimo, ao bom senso. Afinal, somos humanos.
A orquestra filarmônica estadual sobre a qual me refiro sem citar
nominalmente porque não reside aí a importância, - pasmem, senhores! -, é uma
excelente orquestra. Músicos competentes, sensíveis e com remuneração muito
aquém da merecida pelo que fazem, compõem esse grupo musical no qual não
existe ninguém que seja de minha família. Daí, a minha imparcialidade. São,
de fato, musicistas e provam-no todas as vezes que realizam alguma
apresentação. Tive, por diversas ocasiões, a oportunidade de comprovar o que
afirmo acima posto que saí encantado, inebriado por tanta música de excelente
qualidade bem executada. E não foi somente dentro de teatros municipais pomposos
e adaptados às exigências acústicas que pude observar o que move este
conjunto musical. Também já me sentei no chão, em praias ou praças públicas,
só para ser acariciado pelo que me chegava aos ouvidos: música do melhor
padrão.
Há, no Brasil, um abandono no que diz respeito à música chamada erudita -
vide o desconhecimento da obra de um Villa-Lobos pela maior parte da
população. Bobagem falar sobre isto, porém, de conhecimento público, bem como
sobre suas razões, mais complexas e que aqui não cabem. Portanto, em
tentativas de popularização, concertos são realizados, vez por outra, para o
grande público non-habitué. Isto faz com que eu, tristemente, me lembre de um
disc-laser que possuo, gravado na Rússia quando do retorno de Vladimir
Horowitz àquele país, após sei-lá quantos anos de exílio na América. Nas
tomadas externas - (em tempo: o vídeo chama-se "Horowitz in Moscow"
e foi realizado, em 1986, pela CBS Artists, americana, em parceria com a
alemã Deutsche Grammophon) - que antecedem o recital no Conservatório de
Moscou, pode-se ver, debaixo de um frio intenso, nas filas diante do teatro,
também operários e pessoas humildes, algumas até com sorrisos desdentados.
Pois bem, eis que o governo estadual resolve, mais uma vez, levar a orquestra
às praças e anuncia que ela tocará, de Tchaikowsky, a sexta sinfonia, a
Patética, em si menor, opus 74. Leio atentamente a notícia no jornal, pois
quero saber o local e a hora. Um pouco mais adiante, em nota crítica, um
artigo sem a menor sombra de dúvida bem escrito, sem erros gramaticais e bem
diagramado, bem impresso.
Sinfonia Patética, a fácil sinfonia de um compositor fácil, dizia a chamada
no título.
"Fáceis, UMA OVA!", exclamei, exclamo e exclamarei sempre. Se
necessário, gritarei.
Admito, obviamente, o não se gostar de algo. Mas, daí a permitir-se uma
injustiça...?... Popular, porque muito tocado? Eu concordo. Por vezes
romântico às raias da loucura? Estou de pleno acordo. Mas obra fácil de um
compositor fácil é, para mim, a opinião de alguém sem (in)formação. Se não
tiver estofo para sentar-se a analisar as enormes dificuldades impostas por
esta música, que se cale, imediatamente. Não são apenas empecilhos técnicos,
mas interpretativos, sobretudo. E não há quem lhe tome a palavra, quem o faça
olhar-se num espelho? Seria conveniente que alguém lembrasse a essa pouco
ilustrada e, portanto, nada ilustríssima pessoa que, certa feita, interrogado
por um jornalista sobre a obra mais difícil que havia executado em público, o
pianista russo que citei acima disse ter sido, sem que aqui se faça
comparação entre duas obras tão diversas, de Schumann, "Träumerei",
pequena e lindíssima peça que a grande maioria dos alunos do teclado dedilha
com incrível facilidade. O obstáculo, alegara Horowitz, é conseguir-se o
clima exigido na interpretação, o que sempre, continuou ele, levou-me a
transpirar mais que se estivesse a praticar algum esporte. Imaginem, então,
com todas as resoluções técnicas a serem vencidas e transpostas, fazer ecoar
a angústia monumental do outro russo, sem cair no excessivo, sem perder a
ponta do fio do novelo que conduz à Beleza nela contida?
Inicialmente na tradicional tonalidade heróica de mi bemol maior, esta
sinfonia seria dedicada ao Czar Alexandre III e chamada, conseqüentemente, de
Heróica. Contudo, durante uma viagem de trem até Paris, Tchaikowsky
reformulou tudo, noutra tonalidade, compondo uma sinfonia programática,
subjetiva. Sabe-se que ele afirmou, em carta ao sobrinho Vladimir Davidov:
"Amiúde, enquanto compunha, chorei com amargor”.
Concluída e dedicada a Davidov, recebeu o subtítulo Patética porque
Tchaikowsky rejeitou a palavra Trágica. Patética, entretanto, é a tradução
inadequada com a palavra francesa "pathétique". No caso da
sinfonia, está mais para o sofrimento que é expresso no vocábulo russo
"pateticheskoy". E, de fato, jamais sofrimento e autocomiseração
foram expressos de maneira tão vívida, tão lancinante, em uma obra sinfônica.
Sobretudo no primeiro e no último movimentos desta dificílima partitura,
histeria e instabilidade emocional foram transformados em pura arte elevada.
Tendo por essência a Vida e a Morte, com o Amor intercalado, é um marco nas
composições sinfônicas. Tchaikowsky considerou-a a mais sincera de todas as
suas composições. "Amo-a como jamais amei qualquer outra de minhas
criações", disse. "Nunca fiquei tão satisfeito comigo mesmo, tão
orgulhoso, tão feliz na consciência de ter criado algo bom... Sem exagero,
pus toda a minha vida nesta obra", concluiu ele. Dias após a estréia,
regida por ele próprio em São Petersburgo, Tchaikowsky morreu depois de ter
deliberadamente bebido água contaminada com o vibrião do cólera.
A orquestra filarmônica estadual encantou a todos os que gostam de boa
música, bem executada. Sempre lutando com dificuldades para manter-se
atuante, superou-se nos dois movimentos trágicos da Sinfonia - (1º - Adagio;
Allegro non troppo e 4º - Finale: Adagio lamentoso; Andante) e foi perfeita
nos outros dois (2º - Allegro con grazia e 3º - Allegro molto vivace). Não de
forma patética, mas com todo o "pateticheskoy" transformado em
beleza melódica de uma orquestra batalhadora, sofrida e digna, porém.
Dir-se-ia uma orquestra em auto-retrato. Porque presente e porque ouvi, em
outra oportunidade, a mesma peça com a Sinfônica de Chicago, sinto-me orgulhoso
em declarar seguramente desafiador, consciente, porém, malgrado qualquer
crítica tola e despreparada - (aqui, o meu repúdio!), que a orquestra
filarmônica foi, em vários momentos, melhor que aquela justificada e
merecidamente riquíssima, e festejada, de Illinois.
- José P. di Cavalcanti Jr. –
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